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Do Tempo das Descobertas: Leitura portátil

Terça-feira, 19.01.10

 

Do Albergue Espanhol este post de Luís Naves sobre livros e filmes, neste caso de ficção científica mas que, no fundo, nos levam sempre ao essencial da natureza humana e do seu destino.

 

" Leitura portátil

 

por Luís Naves 

O fim da Humanidade

A literatura tem extensa tradição de histórias pós-apocalípticas, sobretudo no género da ficção científica, mas há exemplos clássicos de relatos sobre a deambulação desesperada de personagens por mundos em colapso e paisagens desoladas. A crueldade das guerras deve ter produzido as primeiras referências, mas a destruição da humanidade é um mote mais recente. Nos cinemas está ainda em exibição um óptimo filme sobre o tema, A Estrada (na imagem), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy. [Ficamos na dúvida sobre a causa do apocalipse, mas os incêndios florestais a posteriori fizeram-me pensar na hipótese de asteróide].
O cinema adora este assunto (Mad Max, Waterworld) e já existe a tecnologia para o explorar. Na literatura, o tema terá aparecido com os românticos, mas foi usado por autores difíceis de classificar (Jack London, por exemplo).
Jules Verne e H. G. Wells exploraram o filão, que se tornou típico da literatura de imaginação científica. Mas a grande explosão de histórias surgiu no tempo da Guerra Fria, quando a destruição do planeta era uma possibilidade que não levaria mais do que alguns minutos de decisões erradas.
Há apocalipses de vários tipos, das invasões à doença. Dois livros famosos exploraram a destruição civilizacional criada pela cegueira súbita da humanidade: O Dia das Trífides, um sci-fi do britânico John Windham; e outro mais recente, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, onde se imagina um mundo pós-apocalíptico parecido com um campo de concentração.
Quando eu era miúdo e devorava livros da colecção Argonauta, gostei especialmente de um romance muito imaginativo, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr. É também uma notável reflexão sobre a religião, a força dos dogmas e a teimosia humana. Miller era sobretudo um autor de contos e surge exactamente neste formato um dos textos mais devastadores que já li sobre distopias pós-apocalípticas. Chama-se Lot, é da autoria de um obscuro jornalista e escritor americano, Ward Moore, que para a posteridade deixou
esta história de uma dezena de páginas. Há um conto semelhante, de Júlio Cortazar, A Autoestrada do Sul que deu origem a um filme de Godard, Weekend; mas Lot também inspirou filmes (parece que nem pagaram direitos ao autor, limitando-se a roubar a ideia).
E que ideia é essa? Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem menos que banal, que tem um plano de fuga da sua família. Esta corrida para a segurança prevê passos intermédios, incluindo chegar a determinada autoestrada em certa quantidade de minutos, levar apenas o essencial no carro, sacrificar o cão, escapar aos engarrafamentos de tráfego, por aí fora.
Seguimos o protagonista e os seus cálculos cada vez mais mesquinhos; a acção acelera, à medida que a condução fica mais brutal; a família discute; o mundo torna-se alucinante, enquanto a fuga avança e o tempo escasseia. Mas o leitor não está preparado para o final da história, que me parece ser um monumento literário sobre a natureza humana, no que ela tem de primitivo e, apesar de tudo, de complexo e impiedoso. Em Lot, o golpe de asa está no desenlace tão lógico que só podia ser aquele. Pelo contrário, em A Estrada é um final mole que desilude e enfraquece uma ideia que tem dado pano para mangas. 
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:34








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